Wicca


A palavra "bruxaria" carrega muitos significados, moldados por diversas influências históricas e sociais. Na Idade Média, por exemplo, estava associada à adoração do Diabo, conforme a visão cristã, o que alimentou no imaginário popular a ideia equivocada de que as bruxas possuíam poderes sobrenaturais e usavam a feitiçaria para prejudicar os outros. Além disso, a bruxaria possui uma rica diversidade de interpretações, que variam conforme as abordagens histórica, antropológica, social e folclórica.

Entretanto, com o surgimento da Wicca, o conceito de "bruxa" e "bruxaria" foi resgatado das distorções e superstições que marcaram seu passado, sendo revivido e reconectado com suas raízes genuínas.

Para os praticantes da Wicca, bruxaria e Wicca são, na verdade, sinônimos, representando uma religião que encontra inspiração e sabedoria na natureza.

A bruxaria, portanto, é mais do que uma prática religiosa, também é um ofício. A complexidade dos termos que a definem pode gerar confusão e divisão entre praticantes, mas essa separação, alimentada por alguns, revela um desconhecimento sobre as origens e o renascimento dessa tradição.

É essencial compreendermos o significado dessas palavras para perceber que são, de fato, análogas.

A palavra "bruxaria" tem origem na tradução do inglês "witchcraft" (witch/bruxa + craft/ofício). O termo "witch" remonta ao anglo-saxão, com raízes no sânscrito e nas primeiras línguas europeias. No inglês medieval, a palavra "wicche" deriva do antigo "wiccan", que significa "praticar bruxaria". 

Dentro da Wicca, a bruxaria é vista como uma religião de cura, magia e sabedoria. Mas seus significados vão além dessas definições, envolvendo uma rica tapeçaria de práticas espirituais.

A bruxaria é uma religião neopagã, iniciática e de mistérios, que não é revelada nem institucionalizada, sendo orientada por uma visão matricêntrica.

O neopaganismo refere-se a religiões contemporâneas que buscam inspiração nas culturas pré-cristãs, especialmente aquelas que cultuavam divindades femininas. O termo "pagão" tem origem no latim "pagus", que se referia ao pedaço de terra onde se cultivava a alimentação, representando a forte relação dos antigos com a natureza e a agricultura. Nesses tempos, as divindades não eram reveladas como as dos deuses cristãos, mas sim imanentes, presentes no cotidiano da natureza e das tribos.

À medida que as culturas evoluíram para impérios e cidades-estados, as religiões se tornaram mais institucionalizadas, com deuses reverenciados em templos e por sacerdotes ordenados, como nas culturas egípcia, grega e romana.

O paganismo, portanto, se baseia na lógica espiritual centrada na Terra, na natureza e no divino. O "neopaganismo" é uma reconstrução moderna desse antigo paganismo, inspirada nas culturas de povos como os celtas, gregos e egípcios.

Além da Wicca, outras tradições neopagãs, como o Asátru (paganismo nórdico), o Druidismo (paganismo celta), o Helenismo (paganismo grego) e o Kemetismo (paganismo egípcio), buscam resgatar e adaptar práticas religiosas pré-cristãs. A Wicca, com sua diversidade de tradições, não se orienta exclusivamente por uma cultura específica, mas sim por uma mistura de influências mitológicas de várias culturas, sendo fortemente influenciada pela tradição celta-germânica devido à sua origem.

A Wicca é também uma religião iniciática, cujo foco está na transformação espiritual. Ao contrário das grandes religiões com líderes centrais, como o cristianismo com o Papa, a Wicca valoriza a iniciação e a autonomia individual ou de pequenos grupos (Covens). A iniciação é um processo de autoconhecimento e transformação, que permite ao praticante despertar habilidades psíquicas para se conectar com os planos mais profundos da natureza.

Além disso, a Wicca é uma religião de mistérios, que leva seus praticantes a uma compreensão mais profunda dos ciclos da vida, morte e renascimento, através da experiência direta e da contemplação dos mistérios do universo. Esses mistérios não podem ser totalmente explicados por palavras, mas são sentidos de forma intuitiva, como o amor, o infinito e o atemporal.

Ao contrário de religiões reveladas, como as abraâmicas, a Wicca não foi "revelada" por uma divindade, mas reconstruída ao longo do tempo. Suas raízes remontam às primeiras xamãs e feiticeiras que, inspiradas nas mudanças das estações e nas fases da Lua, desenvolveram práticas rituais e mitológicas. Portanto, a Wicca é uma religião ensinada, não institucionalizada, e sua verdadeira "igreja" é a natureza, que serve como templo.

Por fim, a Wicca é uma religião profundamente inspirada pelo princípio matricêntrico, que coloca o feminino, em especial as Deusas, no centro de sua espiritualidade. Essa abordagem contrasta com o patriarcado, valorizando o feminino tanto na prática religiosa quanto na forma como nos relacionamos com o planeta e com os outros.

A Bruxaria Contemporânea, portanto, é uma religião que se adapta às questões atuais, transformando-se continuamente. Ela não é fossilizada, mas se encontra em constante evolução, oferecendo aos seus praticantes uma oportunidade de vivenciar um novo paradigma de conexão com o sagrado, sem deixar de enfrentar os dilemas da vida moderna, mas trazendo uma nova luz para eles.


Neopaganismo:

O neo-paganismo compreende um conjunto de religiões contemporâneas que se inspiram em mitos, ritos e práticas de tradições pré-cristãs, com uma visão do ser humano e do mundo que reverencia a natureza e o divino imerso nela. A ideia central dessas religiões está na celebração das divindades femininas, principalmente as Deusas, que eram cultuadas em diversos períodos da história humana, antes da ascensão do cristianismo. Contudo, é importante compreender que o conceito de neo-paganismo é multifacetado e pode ser interpretado de diferentes formas. O termo "pagão" tem suas raízes no latim "pagus", que se refere ao pedaço de terra destinado ao cultivo agrícola, associando a vida pagã à relação direta com a terra e a natureza. Essa ligação era fundamental nas culturas antigas, onde os clãs e tribos estavam intimamente conectados com o ciclo da terra e da agricultura, conferindo um caráter profundo e vivencial às suas crenças e práticas religiosas.

Ao contrário das divindades reveladas, como as presentes nas tradições monoteístas, as divindades pagãs eram consideradas imanentes – ou seja, elas estavam presentes no cotidiano das pessoas, de forma concreta e imediata, nos elementos da natureza e na vivência das estações, do ciclo agrícola e das forças da terra. Essa abordagem leva a um entendimento politeísta e panteísta do mundo, onde múltiplos Deuses habitam as diferentes manifestações naturais, sendo cultuados por diferentes grupos e clãs, cada um com suas próprias concepções mitológicas e práticas litúrgicas. A espiritualidade pagã, portanto, está diretamente conectada com a terra, com o ciclo da vida e com a força da natureza, o que a torna única e profundamente enraizada na vivência humana.

Com o desenvolvimento das primeiras civilizações, as culturas agrícolas deram lugar à formação de cidades, estados e impérios, o que levou ao aparecimento de religiões mais estruturadas, com templos, sacerdotes e rituais mais institucionalizados. A visão do divino, que antes estava na natureza e era experimentada de forma direta e pessoal, agora se centralizava em Deuses que se tornaram mais institucionalizados e distantes da vida cotidiana das pessoas. Exemplos disso podem ser encontrados nas culturas egípcia, grega e romana, onde os Deuses estavam presentes em templos e eram venerados por sacerdotes organizados. Essa transição reflete uma mudança nas formas de ver e se relacionar com o divino, à medida que as sociedades se tornam mais complexas.

O neo-paganismo, por sua vez, é uma tentativa contemporânea de reconectar os indivíduos com essa espiritualidade mais primitiva e direta, resgatando práticas antigas, mas adaptadas ao contexto moderno. A Wicca, por exemplo, é uma das expressões mais conhecidas desse movimento. Ela se construiu a partir de um resgate de antigas tradições de Bruxaria, adaptadas por Gerald B. Gardner, na década de 1950, e desde então passou a ser reconhecida como uma religião neo-pagã de mistérios e de iniciação. A Wicca não segue uma linha monolítica, mas sim um conjunto de práticas e crenças que podem variar, embora com alguns eixos comuns que a caracterizam, como a reverência à natureza, ao ciclo das estações, ao sagrado feminino e masculino, e à prática da magia. Seu princípio central é a conexão com a terra e os elementos naturais, celebrando a divindade na natureza, e seu respeito pela liberdade individual e pela ética.

No entanto, a Wicca e outras religiões neo-pagãs, como o Asátru, o Druidismo, o Helenismo e o Kemetismo, não são todas idênticas entre si, pois cada uma se inspira em diferentes tradições culturais pré-cristãs. O Asátru, por exemplo, é uma recriação do paganismo nórdico, enquanto o Druidismo se inspira nas crenças e práticas dos antigos celtas. O Helenismo, por sua vez, busca reviver o paganismo grego, e o Kemetismo resgata a tradição religiosa do Egito Antigo. Cada uma dessas vertentes tem suas próprias divindades, mitologias e rituais, mas todas compartilham a centralidade da natureza e a busca por uma experiência religiosa que se conecta diretamente com o mundo natural.

É importante destacar que a Wicca, embora tenha uma forte influência das culturas celta, egípcia, nórdica e greco-latina, não é exclusiva de uma única tradição ou cultura. A diversidade dentro da Wicca é um dos seus pontos fortes, já que ela permite que seus praticantes se inspirem em diferentes mitologias e divindades de várias partes do mundo. Apesar disso, existe uma forte tendência para a valorização da cultura celta, principalmente por conta da origem geográfica da religião, que surgiu na Inglaterra, um local com forte herança celta.

Para entender ainda melhor o que define o neo-paganismo, é útil considerar os termos utilizados para descrever suas diferentes fases, como o Paleopaganismo, o Mesopaganismo e o Neopaganismo, conforme exposto por Claudiney Prieto em seu livro Wicca Para Todos: Um Guia Completo para a Prática da Bruxaria Moderna. O Paleopaganismo refere-se às fés tribais e politeístas centradas na natureza que existiam nas antigas culturas da Europa, África, Ásia e Américas. Essas crenças praticamente desapareceram nas sociedades urbanas modernas, mas ainda podem ser encontradas em algumas culturas isoladas. O Mesopaganismo, por sua vez, é uma tentativa de reviver ou recriar essas fés tribais, influenciado por movimentos como a Maçonaria, o Rosacrucianismo e a Teosofia, mas também marcado por influências de religiões monoteístas. Já o Neopaganismo, como se entende hoje, é um movimento moderno iniciado na década de 1960, que busca criar ou reviver práticas e crenças pagãs, muitas vezes com base em fontes históricas, folclóricas e mitológicas. A Wicca se encaixa nesse contexto como uma das formas mais organizadas de neo-paganismo, enquanto outros movimentos, como o Neodruidismo, também se inserem nesse campo.

Portanto, o neo-paganismo, e em especial a Wicca, representam uma tentativa de reconectar o ser humano com uma visão mais integrada e reverente da natureza e do divino, superando a dicotomia das religiões monoteístas e buscando uma experiência espiritual mais direta e pessoal, que reverencia tanto o feminino quanto o masculino e as forças naturais do mundo. Isso reflete uma busca por uma religiosidade mais inclusiva, holística e em sintonia com o mundo natural, oferecendo alternativas a uma espiritualidade dominante que muitas vezes se mostra desconectada da Terra e do corpo humano.


História e Origens da Wicca:

A bruxaria, como prática viva e em constante transformação, reside muito mais nas camadas mais profundas de nossa essência, onde a carne se encontra com os ossos, e onde o espírito, imerso nas memórias ancestrais, se reconecta com suas origens. Para diversas culturas, os ossos eram a verdadeira representação do ser humano, não apenas como estrutura física, mas como um elo com o além, com os antepassados, especialmente o crânio, que se torna um símbolo da continuidade da vida e da sabedoria ancestral.

Na construção da bruxaria moderna, vemos um processo semelhante: é como se estivéssemos reconstituindo um esqueleto ancestral, uma forma composta por fragmentos e reminiscências das práticas antigas, mas adaptadas e reconstruídas ao longo do tempo. Esses ossos que compõem a bruxaria hoje, são, em muitos casos, reminiscências de práticas ancestrais preservadas por séculos, mas também são novos moldes criados por aqueles que buscam reviver e reinterpretar o conhecimento da Antiga Religião Pagã. Alguns desses ossos se mantiveram intactos, como os fêmures que conectam as tradições mais preservadas, enquanto outros foram substituídos, como costelas de gesso, para manter a integridade de um esqueleto que continua a viver e a transformar-se.

É importante entender que a bruxaria não busca uma "autenticidade histórica" estrita. Não é necessário que a prática seja uma reconstrução perfeita daquilo que existia nas culturas antigas. Afinal, a bruxaria é uma memória, uma vivência espiritual, uma energia que percorre o inconsciente coletivo da humanidade, revelando-se por meio de imagens e símbolos, em sonhos e experiências profundamente pessoais. Não há uma "bíblia sagrada" que contenha todos os dogmas ou ensinamentos de uma bruxa. Ao contrário, a bruxaria é viva, como a terra que ela cultiva, e se adapta conforme a necessidade e a percepção de cada praticante.

Esse processo de reconstrução e ressignificação da bruxaria está profundamente enraizado na conexão com a natureza e com as forças elementares que moldam o mundo. Cada "osso" da bruxaria carrega consigo um pedaço de uma cultura e de um tempo específico, impregnado por suas crenças e práticas, como o estudo das antigas religiões de fertilidade que tanto influenciaram os rituais de Gardner, de Murray e de outros praticantes e estudiosos. A busca pela "origem" da bruxaria, portanto, não se limita a uma linha do tempo histórica, mas a uma jornada espiritual, em que o praticante é desafiado a criar e recriar sua própria conexão com o divino e com o mundo natural.

Gerald B. Gardner, uma figura central na Wicca moderna, é muitas vezes visto como o "divisor de águas" entre o passado oculto das antigas práticas de culto à fertilidade e as novas influências espiritualistas e ocultistas que surgiram no século XIX. Ele não foi apenas um "restaurador" da bruxaria, mas um mediador entre mundos, conectando as tradições antigas com as novas correntes espirituais que se espalhavam pela Europa. Sua obra foi, em muitos aspectos, uma síntese de saberes ocultos, que, assim como os ossos de um esqueleto, foi reconstruída e moldada para criar algo novo e vibrante.

Ao observar a evolução da bruxaria e da Wicca, vemos que elas não estão presas a um "templo" fixo ou a um único corpo de práticas. Pelo contrário, são fluidas, adaptáveis e profundamente pessoais. O termo "Wicca", com suas raízes etimológicas ligadas à ideia de sabedoria e magia, é uma expressão desse poder transformador da natureza, capaz de dobrar e moldar as forças da vida ao nosso favor. Assim, tanto a bruxaria quanto a Wicca, longe de serem entidades estáticas, são forças vivas que moldam e são moldadas pelaqueles que as buscam com sinceridade e respeito.

A Bruxaria Pré-Gardneriana e seus Movimentos:

No final do século XIX, um conjunto de movimentos intelectuais e espirituais deu origem a uma nova era de descobertas, muitas das quais influenciariam diretamente o surgimento da Wicca e da Bruxaria Moderna. Entre essas influências, destaca-se a Teosofia, que surge em 1875, como uma filosofia que unia magia, espiritualismo, alquimia e ciência, mas com um toque erudito e burguês característico da época. A Teosofia foi introduzida ao mundo por Helena Blavatsky e tornou-se uma ponte entre diversas culturas e tradições religiosas, oferecendo um conhecimento considerado "divino" ou "científico", baseando-se em uma visão mais ampla do universo e da espiritualidade.

Este período foi marcado por um movimento crescente de busca por respostas espirituais, especialmente por parte de estudiosos e intelectuais, que, frente às incertezas provocadas pelas rápidas mudanças tecnológicas, sociais e científicas da época, começaram a olhar para as religiões e caminhos espirituais como uma alternativa para reconciliar ciência e espírito. Era um momento de transformação, após a Inquisição, em que os avanços científicos começaram a desafiar as verdades religiosas, e as descobertas arqueológicas começavam a revelar um passado ancestral que até então estava oculto.

Em 1888, a fundação da Golden Dawn (Aurora Dourada) se tornou um marco importante, pois essa ordem esotérica uniu o conhecimento oculto e mágico de várias tradições, incluindo as práticas de magia cerimonial e hermética, que foram fortemente influenciadas pelas ideias teosóficas. Além disso, a Golden Dawn introduziu no Ocidente práticas e conceitos orientais, como o Karma, os Chakras e o Tantrismo, que começaram a se misturar com os ensinamentos da magia ocidental, criando uma nova cosmovisão. Essas influências foram essenciais para a formação do ocultismo moderno e ajudaram a moldar a espiritualidade que conhecemos hoje, inclusive influenciando as práticas da Bruxaria.

Em paralelo a esses movimentos, Sir James George Frazer publicou sua obra seminal The Golden Bough (O Ramo de Ouro), em 1890, na qual ele descrevia os cultos de bruxaria medievais como manifestações de cultos pagãos a deuses gregos-romanos, como Dionísio e Pã. Essa obra forneceu uma base histórica que mais tarde confirmaria os encontros de Gerald Gardner com o Coven de New Forest, estabelecendo uma conexão entre as práticas de bruxaria da Idade Média e os cultos da Antiguidade.

Outro nome fundamental desse período foi a antropóloga e egiptóloga Margaret Murray, que, em 1921, publicaria O Culto às Bruxas na Europa Ocidental, aprofundando ainda mais a ideia de que a bruxaria não era apenas um conjunto de práticas mágicas, mas sim uma religião antiga e muito mais complexa, com uma cosmogonia única e centrada na fertilidade da terra e da natureza.

O trabalho de Charles G. Leland, em 1899, foi igualmente importante, trazendo à tona a obra Aradia: O Evangelho das Bruxas, que argumentava que a bruxaria, especialmente a italiana, era uma religião ancestral da Europa, praticada desde a Idade Média por cultos dedicados à Deusa Diana. Leland não apenas revelou uma conexão profunda da bruxaria com as tradições espirituais antigas, mas também forneceu uma evidência de que tais práticas estavam vivas e preservadas secretamente em algumas comunidades, como a região da Toscana, na Itália.

A conexão entre essas diferentes correntes de pensamento e práticas ocultistas, religiosas e mágicas foi vital para o desenvolvimento da Wicca moderna. Gerald Gardner, que iniciou sua jornada de práticas espirituais e esotéricas nas primeiras décadas do século XX, foi profundamente influenciado por essas fontes, tanto da Golden Dawn quanto da Teosofia e das descobertas feitas por Frazer e Murray. Ao integrar essas influências em sua própria prática e visão de mundo, Gardner fundou a Wicca como uma religião iniciática, ligada ao culto à Deusa e ao Deus, com uma ênfase na natureza, nos ciclos lunares e no poder da magia.

Finalmente, a figura de Aleister Crowley, membro da Golden Dawn e fundador da O.T.O. (Ordo Templi Orientis), desempenhou um papel crucial ao trazer uma nova liberdade e inspiração à magia cerimonial e ao ocultismo. Sua filosofia Thelêmica influenciou muitas correntes esotéricas e, por extensão, a Wicca. Embora Crowley tenha se distanciado das práticas de Gardner, sua abordagem radicalmente nova à magia e à espiritualidade deixou um legado duradouro na bruxaria moderna.

Esses movimentos e descobertas se entrelaçam, como as costelas de um esqueleto oculto, para dar vida à prática da Wicca, que se afastaria da bruxaria marginalizada da Idade Média e surgiria como uma religião legítima, em sintonia com os tempos modernos.

A Bruxaria de Gardner:

Em 1939 E.C., Gerald B. Gardner, um inglês de ascendência escocesa, nascido em Blundellsands, próximo a Liverpool, em 13 de junho de 1884, retornou da Malaya, onde havia estudado o povo local e escrito um livro, em 1936, sobre as armas dessa cultura. Sua pesquisa minuciosa sobre esse povo lhe rendeu grande prestígio entre folcloristas, historiadores e antropólogos. Em 1954 E.C., ele publicaria sua obra mais famosa, A Bruxaria Hoje, que consolidaria ainda mais sua influência no campo dos estudos ocultistas.

Após uma longa temporada no exterior, trabalhando no plantio de chá e conhecendo diversas culturas, Gardner retornou à Inglaterra com uma situação financeira confortável e decidiu se aposentar em seu novo lar, localizado na região de New Forest, em Hampshire, acompanhado de sua esposa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Gardner se envolveu ativamente na defesa da Grã-Bretanha, chegando a escrever uma carta direta aos nazistas, afirmando que todas as famílias inglesas estariam prontas para defender seu país com armas. Durante esse período, ele se envolveu com um grupo teatral rosacruciano, conhecido como a Fellowship of Crotona (Sociedade de Crotona), que afirmava ser rosa-cruz. No entanto, Gardner logo se deu conta das falácias do líder do grupo, um homem exibicionista conhecido como "Irmão Aurelius". Apesar disso, ele ajudou a escrever peças teatrais com temas ocultos e espirituais.

Gardner, porém, não conseguia entender como membros com elevado nível de conhecimento continuavam a seguir um líder como "Irmão Aurelius". Durante esse tempo, ele foi iniciado em um Coven de Bruxas, cuja linhagem remontava aos tempos das fogueiras da Inquisição, algo que ele mesmo confirmaria posteriormente. Essa descoberta, aliada ao fato de que a lei que criminalizava a bruxaria na Inglaterra foi revogada em 1951 E.C., impulsionou Gardner a revelar ao mundo a existência dessa antiga prática.

Ele começou a divulgar esse conhecimento por meio de entrevistas, publicações e até através do museu de magia e bruxaria que ele estabeleceu em Castledown, Isle of Man. Essa revelação, no entanto, causou polêmica. Muitos acreditam que Gardner deveria ter mantido em segredo o que descobriu. A verdade, porém, é que ele queria manter viva uma tradição que, para muitos, estava extinta.

Apesar de críticas, a contribuição de Gardner à bruxaria moderna é inegável. Ele resgatou a arte da bruxaria em um momento em que ela era amplamente considerada superstição e condenada pela sociedade. Ao contrário de outras religiões, a bruxaria não possuía uma instituição clerical, e Gardner acreditava que aqueles que possuíssem o chamado interior pudessem se despertar para a prática ancestral da bruxaria.

No entanto, o movimento cresceu além das intenções originais de Gardner, e muitas pessoas começaram a se interessar pela bruxaria apenas como uma forma de entretenimento ou para ganhar visibilidade na mídia. Esse fenômeno é algo que persiste até os dias de hoje.

Quanto à forma como Gardner estruturou a bruxaria moderna, ele incorporou elementos da Maçonaria, como a iniciação em graus e o uso de ferramentas ritualísticas. Além disso, a nudez ritual, que ele adotou, se tornou uma característica marcante de muitas práticas Gardnerianas. A influência de Aleister Crowley também é evidente, especialmente no uso de frases e conceitos da filosofia Thelêmica em seu Livro das Sombras, como "Faze o que tu queres, desde que não prejudique ninguém".

Gardner também incorporou elementos da magia cerimonial, influenciado pela Cabala e pela tradição mística judaica-cristã. Isso criou uma fusão entre práticas pagãs, de adoração a deuses antigos, com elementos de magia ocidental, dando à Wicca uma abordagem única.

Apesar de seu trabalho ter sido decisivo para a liberdade religiosa e para o reconhecimento da bruxaria como uma prática legítima, Gardner também se deparou com a questão de como a sociedade veria a magia. Ele buscou, acima de tudo, restaurar a glória da antiga religião, mostrando que a bruxaria não era algo demoníaco ou maligno, como muitas vezes a imagem popular retratava. Em vez disso, a bruxaria era uma prática espiritual autêntica e antiga.

Entre as obras mais importantes de Gardner, destaca-se A Bruxaria Hoje (1954), onde ele define claramente o que é e o que não é a bruxaria. Esse livro, ao lado de sua contribuição para o movimento da Wicca, abriu portas para muitas pessoas que desejavam compreender e praticar a bruxaria de forma séria.

A história de Gardner é muito mais rica e complexa do que essas breves linhas podem mostrar. No entanto, é importante reconhecer o impacto que ele teve na formação da bruxaria moderna. Após sua morte em 1964, figuras como Doreen Valiente e Patricia Crowther continuaram seu trabalho, adaptando a prática para novos tempos. A Wicca, como conhecemos hoje, seria moldada por essas contribuições e pelas novas gerações de bruxos e bruxas que chegaram para continuar o legado de Gardner e seus seguidores.

A Bruxaria Pós-Gardner e suas transformações:

Até aquele momento, a bruxaria se havia estabelecido como um "gueto" inglês, com novos praticantes surgindo através de iniciações em várias partes da Inglaterra. Isso gerou uma pequena onda de bruxos Gardnerianos, como Olive Green, e também iniciou uma polêmica em torno da saída de Doreen Valiente, que buscava uma conexão mais pessoal com a Arte. Ao lado das veteranas como Patrícia Crowther e a enigmática Monique Wilson, que encantavam e atraíam seguidores, surgia um nome entre as sombras dessa tradição inglesa, um novo bruxo chamado Alex Sanders, que começaria a desafiar os dogmas da Velha Religião.

O cenário pós-guerra que moldava a visão de Sanders já era radicalmente diferente do conservadorismo que Gardner defendia. Nesse novo mundo, Sanders se tornaria uma figura central para a juventude, um ícone midiático que não apenas deixou sua marca de maneira polêmica na Arte, mas também trouxe algo inovador: a iniciação através de um treinamento mais disciplinado e estruturado. Ao contrário da abordagem Gardneriana, que se concentrava na aprendizagem de rituais e imitação dos mestres, Sanders queria cultivar e desenvolver habilidades psíquicas latentes em cada praticante.

Além disso, Sanders ajudou a popularizar a Wicca de uma forma inédita, ao mesclar mistérios antigos com a energia da juventude rebelde dos anos 60 e 70, criando uma nova dinâmica para a bruxaria. Suas entrevistas, como as que ele deu à BBC, mostram claramente essa mudança de foco e o alcance que a Wicca começava a ter.

A transição histórica que levou a essa popularização vai muito além dos limites dessa narrativa e envolve uma série de personagens, muitos deles movidos por egos conflitantes. Mas, o fato é que Alex Sanders, conhecido como o "Rei dos Bruxos", irritou profundamente os puristas da época, ao fundar a tradição Alexandriana. Isso abriria caminho para outras vertentes surgirem em paralelo.

Enquanto isso, a Wicca e o Paganismo já haviam chegado aos Estados Unidos, onde rapidamente se integraram aos movimentos feministas, aos direitos LGBT, ao movimento hippie, e até mesmo ao icônico Festival de Woodstock. Se Gardner foi responsável por expor a bruxaria ao público, é incontestável que Alex Sanders foi o responsável por sua verdadeira popularização e por permitir que a Wicca ganhasse raízes profundas.

Nos anos 60, com as descobertas arqueológicas sobre as deusas neolíticas, a bruxaria começou a beber de fontes mais antigas, como Leland, Frazer e Murray haviam previsto. Esse novo entendimento da Arte trouxe uma mudança profunda em sua aparência e nas práticas adotadas. Até então, a bruxaria era marcada por um cerimonialismo dramático e rituais intensos, mas a década de 70 viu uma verdadeira revolução.

Nos EUA, a bruxaria se distanciou da magia medieval e da Alta Magia com suas raízes cristãs, e passou a focar mais nas questões sociais e ambientais, que começaram a se tornar urgentes com o avanço da crise ecológica e a ascensão de novos movimentos sociais. Descobriu-se que, no passado, as sociedades neolíticas talvez tenham sido teocráticas, o que sugeria uma organização social radicalmente diferente do patriarcado e do capitalismo que dominavam a sociedade contemporânea.

A Deusa, que antes era vista apenas como co-criadora do universo na cosmogonia pagã, agora ascendeu a um novo status: a Criadora do Universo. Ela ganhou o título de "Deusa dos 10 Mil Nomes", representando o conceito plural de Deusas de diversas culturas matriarcais que floresciam nas academias da época.

A bruxaria, agora, passou a ser mais do que um conjunto de rituais antigos; ela se tornou uma busca mais pessoal e íntima, com a chegada do movimento "faça você mesmo". Nomes como Starhawk, Selena Fox, Z. Budapest, Laurie Cabot e Scott Cunningham foram essenciais para documentar e registrar essa nova fase, centrada na Deusa e não mais em covens reclusos ou perseguições religiosas.

A Wicca se expandiu além de seus rituais tradicionais, abraçando causas sociais como o ativismo ambiental, os direitos dos gays e negros, e até movimentos para reverter a destruição da camada de ozônio. A moral do "faça o que quiser, desde que não prejudique ninguém" ganhou uma nova profundidade e passou a ser vista como um princípio mais radical de mudança social e espiritual. A Wicca também se tornou um símbolo de feminismo e matriarcado, rompendo com a estrutura heteronormativa dos covens mais tradicionais. A Deusa forneceu uma força vital para feministas, gays e todos os oprimidos, oferecendo um espaço seguro para se reconstruir, especialmente durante a crise da AIDS, quando muitas vítimas encontraram na bruxaria um refúgio espiritual.

As divisões de gênero dentro dos grupos começaram a desaparecer, e homens e mulheres passaram a criar grupos próprios. Z. Budapest, por exemplo, teve uma enorme influência na criação de círculos femininos, como a Bruxaria Diânica, que ajudaram mulheres e lésbicas a encontrar seus próprios mistérios, sem depender de um deus masculino.

O que mais surpreendeu nesse período foi que, apesar de toda a liberdade que o "faça você mesmo" proporcionava, a bruxaria não perdeu seu cerimonialismo tradicional. Pelo contrário, novas formas de rituais foram criadas, enquanto a popularização da Arte também levou a uma superficialização em certos círculos, tornando a bruxaria algo que muitos viam como uma alternativa para passar os finais de semana.

Durante esse processo, surgiram novos movimentos Neopagãos, como o Kemetismo, Druidismo e Helenismo, que além de buscarem uma conexão espiritual com a natureza, trouxeram de volta e reinventaram rituais antigos que estavam há muito tempo perdidos.

Finalmente, em 1972, a Wicca foi oficialmente reconhecida como religião nos Estados Unidos, sendo isenta de impostos pelo IRS. Esse reconhecimento consolidou a bruxaria como uma religião legítima, não mais escondida nas sombras, mas aberta ao mundo como uma prática espiritual honrada e respeitada.

A Bruxaria na atualidade:

Tudo o que compôs a Bruxaria e o Paganismo, como os conhecemos hoje, influencia diretamente a forma como praticamos a Arte, seja em grupos fechados como os Covens, em círculos abertos, ou de forma solitária. A bruxaria, enquanto religião, hoje é vista com mais naturalidade em lugares onde ela ressurgiu, como na Inglaterra e nos EUA, e há preocupações relacionadas à sua legalidade e ao reconhecimento dessa prática ao redor do mundo. A religião, por ser descentralizada e sem um líder ou uma bíblia que a fundamente, é vista como um caminho espiritual mais fluido e personalizado, com a possibilidade de diferentes interpretações entre os praticantes, como os Covens ou a Bruxaria Solitária.

A trajetória da Bruxaria, desde sua era pré-Gardneriana, Gardneriana e pós-Gardneriana, foi moldada por diferentes influências ao longo do tempo. Cada novo grupo de praticantes trazia consigo a necessidade de uma cosmogonia e ritualística próprias. Com o tempo, os ortodoxos temiam que a Wicca se perdesse em modismos e se alterasse tanto que perdesse sua essência.

Esse processo de transformação foi amplamente influenciado pelos movimentos feministas das décadas de 70 e 80, que viram na Wicca uma voz poderosa que poderia dar força ao movimento. A presença da Deusa em uma cosmologia ampla conferiu à religião um novo significado, passando a ser vista como uma religião revolucionária que abarcava todos os mistérios das Deusas. Não que a Wicca tenha sido uma religião oficial do feminismo, mas ela foi adotada por muitas feministas, pois refletia os valores e ideais que buscavam.

A prática de bruxaria foi se diversificando, com grupos reconstrucionistas se dedicando a recuperar rituais antigos de Deusas e Deuses de diversas culturas. A busca por essas conexões tornou-se um aspecto central na bruxaria moderna, e a religião passou a ser mais associada ao Sagrado Feminino. Hoje, muitos praticantes se inspiram em Deusas antigas como Ísis, Inanna, Deméter e Gaia, tornando a bruxaria uma prática mais individualizada e conectada às raízes espirituais de cada um.

A flexibilidade da Wicca, algo que Gardner já destacava, permitiu que a religião se reinventasse ao longo do tempo, com diferentes grupos e indivíduos adaptando os rituais conforme as necessidades de sua época. Isso gerou questionamentos, principalmente sobre a legitimidade de algumas práticas, levando à afirmação de que a Wicca, na verdade, é um caminho Neopagão, e não uma réplica exata de antigos cultos pagãos.

A complexidade da Wicca vai além da simples ritualística; ela é vista como um caminho mágico-religioso misterioso e profundo. Embora muitas tradições pagãs antigas tivessem rituais para o povo e para os iniciados, a Wicca contemporânea é um reflexo de uma busca contínua por conexão com o divino e com o poder da natureza.

Com o passar dos anos, a Wicca foi se consolidando como uma religião legítima, com a criação dos 13 princípios da Bruxaria, que ajudaram a estabelecer uma identidade mais coesa e a fortalecer a prática no presente. Hoje, os praticantes se encontram publicamente para debater a Arte, e muitos utilizam a bruxaria como uma força para ações sociais, como protestos contra abusos e discriminações. A consciência ecológica também se tornou parte essencial da prática, com ações voltadas à preservação ambiental e à transformação social.

A Wicca e Bruxaria no contexto Brasileiro:

Ao entrarmos em contato com a Wicca no Brasil, seja através das redes sociais ou de publicações especializadas, muitas vezes assumimos sua presença como algo natural, como se sua disseminação no país tivesse ocorrido de maneira espontânea e sem um processo histórico por trás. No entanto, essa percepção demonstra um certo distanciamento em relação à trajetória da Wicca no território nacional. Essa alienação se torna evidente quando grande parte dos praticantes brasileiros – especialmente os mais jovens e iniciantes – tende a ignorar ou minimizar essa história, atribuindo a presença da Wicca no país apenas a uma simples "importação" dos ensinamentos de Gerald B. Gardner.

Dessa forma, compreender a história da Wicca no Brasil, seus desafios e suas conquistas é fundamental para aqueles que desejam fazer parte dessa comunidade vibrante e criativa. Graças a um intenso trabalho de seus adeptos, o Brasil tem se tornado um polo de relevância dentro da Bruxaria no cenário neopagão internacional. Assim, conhecer esse passado não apenas fortalece a identidade dos praticantes brasileiros, mas também valoriza o legado que será transmitido às futuras gerações.

Para a elaboração deste ensaio, foram utilizadas as seguintes referências: a monografia de Kallyne F. P. Araújo, intitulada "Wicca e a metamorfose da Bruxa" (Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2015, p. 37-42), disponível no repositório da UFRN, e o artigo "A institucionalização da Wicca no Brasil: entrevista com a bruxa wiccaniana Mavesper Cy Ceridwen", de Celso L. T. Filho, publicado na REVER (Ano 14, Nº 02, Jul/Dez 2014).

Os pesquisadores que contribuíram para a construção deste estudo são unânimes em afirmar que é desafiador estabelecer um marco exato para a origem da Wicca no Brasil. Isso se deve ao caráter fluido e não institucionalizado da religião. Outro fator relevante é a crença, por parte de alguns entrevistados, na existência de uma "Bruxaria Hereditária", onde descendentes de imigrantes europeus reivindicam uma continuidade histórica da Arte no país. Além disso, o sincretismo religioso, amplamente presente na cultura brasileira, tem influenciado a prática wiccana nacional, resultando em desafios para delimitar sua identidade e preservação de suas tradições. Isso ressalta a carência de debates sobre a construção histórica da Wicca no Brasil, tanto em publicações quanto em grupos de estudo e discussões especializadas.

Para compreender o surgimento da Wicca no Brasil, assim como se compreende sua origem através de Gerald Gardner na Inglaterra, é necessário considerar o contexto esotérico que já existia no país. O Brasil, além de ser um espaço de grande diversidade cultural, já possuía um ambiente propício para manifestações místicas antes mesmo da onda New Age. Desde o século XIX, diversas escolas e correntes esotéricas se desenvolveram no território nacional, criando um ambiente fértil para a chegada e consolidação da Wicca. Esse cenário guarda semelhança com o contexto que permitiu o florescimento da Wicca na Inglaterra dos anos 1950, ou seja, uma sociedade aberta ao esoterismo e ao misticismo, favorecendo a difusão dessas ideias.

A primeira obra sobre Wicca publicada no Brasil foi "A verdade sobre a Bruxaria", de Hans Holzer. O autor, um pesquisador de fenômenos psíquicos, teve contato com importantes figuras da Bruxaria, como Sybil Leek e Alex Sanders. O livro foi lançado internacionalmente em 1969 e, posteriormente, traduzido e publicado pela Editora Record em 1977. No entanto, sua chegada ao Brasil não teve um impacto imediato. Foi apenas na década de 1990 que a Wicca começou a se consolidar como uma comunidade no país, impulsionada por traduções de livros fundamentais para sua disseminação, como "O Poder da Bruxa", de Laurie Cabot (lançado pela Editora Campus em 1990), e outras obras de autores renomados como Janet e Stewart Farrar, Doreen Valiente e Gerina Dunwich.

Além das traduções de livros estrangeiros, a literatura nacional também desempenhou um papel importante nesse processo. Em 1992 e 1994, começaram a ser publicados os primeiros livros de autores brasileiros, como "A Cozinha da Bruxa" e "Revelações de uma Bruxa", de Márcia Frazão. No entanto, a abordagem desses textos focava mais na Bruxaria como um caminho espiritual e esotérico, sem necessariamente aprofundar o caráter iniciático e mistérico da Wicca. Muitos dos conceitos apresentados dialogavam com o sincretismo presente no Brasil e se aproximavam da popularização da espiritualidade dentro do movimento New Age.

Outro fator que contribuiu para a popularização da Wicca no Brasil foi a influência da literatura de ficção, como "Brida" (1990), de Paulo Coelho, e "As Brumas de Avalon" (1983), de Marion Zimmer Bradley. Essas obras ajudaram a construir um imaginário sobre a Bruxaria que ressoou entre os leitores brasileiros, despertando o interesse pelo tema e incentivando uma busca mais profunda sobre a religião.

Foi entre as décadas de 1980 e 1990 que a Wicca começou a se consolidar como prática no Brasil. Em São Paulo, um grupo de adeptos formou a loja Além da Lenda, liderada pela escritora Heloisa Galves. Nomes como Roberto Carvalho, Wagner Perico, Denise de Santi e outros foram pioneiros na estruturação da Wicca como um caminho espiritual e religioso no país. A partir dessa movimentação, a primeira iniciativa de organização institucional ocorreu com o I Encontro de Bruxaria do Brasil, realizado em 1998, e a criação da ABRAWICCA (Associação Brasileira da Arte e Filosofia da Religião Wicca), com Claudiney Prieto como seu primeiro presidente.

Com o passar dos anos, surgiram novas iniciativas que fortaleceram a Wicca no Brasil, como a criação da União Wicca do Brasil (UWB) em 2004 e, posteriormente, a Igreja da Bruxaria e Wicca do Brasil (IBWB). Esse processo de institucionalização foi debatido e, embora tenha dividido opiniões entre os praticantes, proporcionou maior segurança jurídica para a prática da religião no país. Segundo Mavesper Cy Ceridwen, a institucionalização da IBWB visava garantir o direito de liberdade religiosa e ampliar o reconhecimento público da Wicca.

Atualmente, a Wicca no Brasil continua sua trajetória de crescimento e reconhecimento. Um dos marcos recentes dessa evolução foi a instituição do "Dia Estadual dos Wiccanianos, Cultuadores do Sagrado Feminino, Pagãos e Praticantes das Artes Mágicas", oficializado em São Paulo em 2016 graças aos esforços de Claudiney Prieto e da deputada Clélia Gomes. Em 2017, a comunidade celebrou pela primeira vez essa conquista, homenageando figuras importantes para a disseminação da Wicca no país.

A história da Wicca no Brasil ainda está em construção, repleta de desafios e avanços. Contudo, o reconhecimento e a preservação desse legado são fundamentais para fortalecer a identidade dos praticantes e garantir que a religião continue a se desenvolver de maneira consciente e autêntica. Resgatar essa trajetória não apenas nos ajuda a entender nosso passado, mas também a direcionar o futuro da Wicca no país.


Paradigmas e Perspectivas da Wicca:

A Wicca, enquanto religião neopagã moderna, apresenta uma rica diversidade de tradições e correntes que se desenvolveram ao longo do século XX. Entre essas vertentes, destacam-se a Wicca Tradicional Britânica, a Wicca Eclética e a Wicca Diânica, cada uma com suas especificidades, paradigmas e influências históricas. Embora compartilhem fundamentos comuns — como a celebração da natureza, a prática ritualística e a valorização do feminino sagrado —, essas tradições propõem abordagens distintas que refletem tanto contextos culturais quanto demandas espirituais de seus adeptos.

Wicca Tradicional Britânica: A Herança de Gardner e a Estrutura Formal

A Wicca Tradicional Britânica (British Traditional Wicca) é a vertente mais antiga e estruturada dessa religião, tendo como principal precursor Gerald Gardner. Gardner, considerado o "pai da Wicca moderna", alegou ter sido iniciado em um coven de uma tradição de bruxaria hereditária na Inglaterra, o que posteriormente culminou na formulação de uma prática ritualística que incorporava elementos do ocultismo ocidental, magia cerimonial e paganismo europeu.

Uma característica central da Wicca Tradicional Britânica é sua estrutura iniciática formal e hierárquica, que envolve graus de aprendizado e a transmissão oral de ensinamentos. Os rituais seguem um modelo bastante padronizado, com ênfase no simbolismo dual do Deus e da Deusa. As tradições mais conhecidas dessa vertente incluem a Gardneriana e a Alexandrina (fundada por Alex Sanders).

O paradigma dessa vertente é tradicionalista, enfatizando a preservação de ritos e práticas específicas que remontam às primeiras formulações da Wicca no século XX. Essa abordagem propõe uma visão ortodoxa da prática wiccana, com um forte senso de continuidade histórica e fidelidade aos ensinamentos originais.

Wicca Eclética: A Pluralidade Contemporânea

A Wicca Eclética surgiu como uma resposta à necessidade de flexibilidade e personalização na prática espiritual. Diferentemente da Wicca Tradicional Britânica, a Wicca Eclética não se prende a uma linhagem formal ou a regras rígidas. Ela se caracteriza pela liberdade dos praticantes em combinar elementos de diferentes tradições espirituais e culturais.

Scott Cunningham é uma figura central na popularização dessa vertente, com obras acessíveis que desmistificaram a prática ritualística e tornaram a Wicca mais inclusiva. Seus escritos enfatizam a prática solitária e o empoderamento do indivíduo na construção de seu caminho espiritual.

O paradigma da Wicca Eclética é pluralista e experimental, permitindo que os praticantes adaptem os ensinamentos wiccanos às suas próprias realidades e crenças. Essa vertente reflete uma tendência contemporânea de sincretismo religioso e individualismo espiritual, sendo especialmente popular na América do Norte e no Brasil.

Wicca Diânica: Feminismo e a Deusa como Centralidade

A Wicca Diânica é uma vertente profundamente influenciada pelo movimento feminista dos anos 1960 e 1970. Seu nome faz referência à Deusa Diana, símbolo do feminino empoderado. Zsuzsanna Budapest, uma figura proeminente nesse movimento, fundou o movimento Diânico com uma forte crítica ao patriarcado e ao domínio masculino nas tradições espirituais.

Diferentemente das demais vertentes, a Wicca Diânica frequentemente exclui a figura do Deus como parceiro da Deusa, concentrando-se exclusivamente na veneração do feminino sagrado. Seus rituais são frequentemente celebrados apenas por mulheres e enfatizam o empoderamento, a cura e a sororidade.

O paradigma dessa vertente é feminista e político, propondo uma reconfiguração das dinâmicas de poder presentes nas religiões tradicionais. Sua prática tem uma forte dimensão terapêutica e comunitária, tornando-se um espaço de resistência às opressões patriarcais.

Apesar das diferenças em suas abordagens, as três vertentes compartilham elementos fundamentais:

  1. Valorização da Natureza: A sacralidade dos ciclos naturais e das estações é um ponto central em todas as práticas.
  2. Ritualística: Embora variem em complexidade, os rituais são práticas essenciais para estabelecer conexão com o divino.
  3. Espiritualidade Feminina: A figura da Deusa ocupa um papel de destaque, refletindo a valorização do feminino como princípio criador.
  4. Evolução Histórica: Todas as vertentes surgiram em resposta às transformações culturais do século XX, seja como uma forma de preservar tradições, seja como uma maneira de adaptá-las a novas demandas sociais e espirituais.

A Wicca Tradicional Britânica estabelece as bases formais da religião, enquanto a Wicca Eclética e a Wicca Diânica representam respostas às demandas contemporâneas por liberdade e justiça social, respectivamente. Juntas, essas vertentes oferecem uma visão abrangente e multifacetada da Wicca, demonstrando a capacidade dessa tradição de se reinventar e permanecer relevante diante das mudanças históricas e culturais.


Wicca de Coven e Wicca Solitária:

A Wicca, como forma de religião neopagã, surgiu no século XX e foi inicialmente estruturada dentro do modelo de coven. A partir da divulgação de seus princípios e da popularização de sua prática, a Wicca também passou a ser adotada por práticas solitárias. Cada abordagem possui características distintas e reflete diferentes formas de vivenciar a espiritualidade dentro do neopaganismo.

Gerald Gardner, considerado o pai da Wicca moderna, apresentou a religião ao público em meados do século XX, baseando-se em uma tradição iniciática que teria sido transmitida a ele por um coven de bruxas praticantes. Em suas obras, como Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959), Gardner descreve um sistema estruturado em covens, pequenos grupos de praticantes que seguem rituais e ensinamentos passados de mestre para aprendiz.

Dentro do modelo gardneriano, a Wicca era essencialmente iniciática, ou seja, exigia que o praticante fosse introduzido por um sacerdote ou sacerdotisa devidamente treinado. Esse modelo foi amplamente seguido por outras linhagens wiccanianas, como a Alexandrina, fundada por Alex Sanders e Maxine Sanders, e a Tradição Diánica, desenvolvida por Zsuzsanna Budapest, que enfatizou a liderança feminina.

Nos covens, a prática religiosa envolve níveis de iniciação, onde os adeptos passam por diferentes graus de aprendizado e comprometimento com a tradição. Raymond Buckland, um dos grandes divulgadores da Wicca nos Estados Unidos e introdutor da Tradição Gardneriana no país, enfatizou a importância da linhagem e do treinamento rigoroso dentro dos covens em seus livros, porém também foi um percursor da Bruxaria Solitária.

O coven funciona como uma unidade religiosa e escola de mistérios, onde os membros compartilham conhecimentos, participam de rituais em grupo e fortalecem sua conexão com os Deuses. Os ensinamentos são transmitidos de iniciado para iniciado, e cada coven possui suas particularidades, respeitando a base tradicional de sua linhagem.

Com a expansão do neopaganismo e o acesso facilitado às informações sobre a Wicca, muitos praticantes passaram a adotar um caminho solitário. Scott Cunningham foi um dos mais proeminentes precursores dessa abordagem ao publicar Wicca: A Guide for the Solitary Practitioner (1988), um livro que revolucionou a maneira como a Wicca passou a ser praticada, permitindo que indivíduos sem acesso a um coven pudessem seguir a religião de forma autônoma.

A Wicca solitária enfatiza a autoiniciação e o direito de cada indivíduo praticar a religião de acordo com sua própria jornada espiritual. Esse modelo de prática reflete a liberdade e a inclusividade que atraíram muitos adeptos ao longo das últimas décadas. Silver RavenWolf também foi uma autora que popularizou esse modelo com obras como To Ride a Silver Broomstick (1993), voltadas para iniciantes na prática solitária.

A maior diferença entre a Wicca de coven e a solitária reside na estruturação da prática: enquanto o coven segue um sistema hierárquico e tradicional, a Wicca solitária é mais flexível, permitindo que o praticante desenvolva sua própria conexão com a espiritualidade, sem a necessidade de iniciação formal. Ambos os caminhos, no entanto, têm como base a reverência à natureza, aos Deuses e à magia, e são igualmente válidos dentro da diversidade do neopaganismo contemporâneo.


Referências Bibliográficas consultadas:

  • BENATTE, Antonio Paulo & CAMARGO, Pamella Louise. A recepção literária na invenção da wicca: um panorama contextual. Atelie de História – UEPG, v.3, n.1, 2015. Disponível em: https://www.revistas2.uepg.br/index.php/ahu/article/view/8071. Acesso em: 19 abr. 2018.
  • DANIELS, Estelle e TUITÉAN, Paul. Wicca Essencial. São Paulo: Pensamento, 2021.
  • FARRAR, Janet e FARRAR, Stewart. A Bíblia das Bruxas. São Paulo: Alfabeto, 2017.
  • FILHO, Celso L. T. A institucionalização da Wicca no Brasil: entrevista com a bruxa wiccaniana Mavesper Cy Ceridwen. REVER, Ano 14, Nº 02. Jul/Dez 2014. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/21761. Acesso em: 19 abr. 2018.
  • GARDNER, Gerald. A Bruxaria Hoje. São Paulo: Madras, 2003 p. 24
  • HIGGINBOTHAM, Joyce & HIGGINBOTHAM, River. Paganismo: uma introdução à religião centrada na Terra. São Paulo: Madras, 2003.
  • JUNG, Carl G et al. O homem e seus símbolos; trad. Maria Lúcia Pinho. 3. ed. especial. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2016.
  • LASCARIZ, Gilberto de. Ritos e Mistérios Secretos do Wicca, um estudo esotérico do Wicca tradicional. São Paulo: Madras, 2010.
  • LOURENÇO JUNIOR, Sérgio Tadeu. A Bruxa como imagem de empoderamento feminino. Trabalho de Conclusão de Curso de Psicologia - Fundação Hermínio Ometto, Araras/SP, 2019.
  • LOURENÇO, Sérgio. O Êxtase da Deusa: uma jornada pela Bruxaria Solitária. São Paulo: Palavra e Verso, 2023.
  • MURRAY, Margaret Alice. O Deus das feiticeiras. São Paulo: Gaia, 2002.
  • PRIETO, Claudiney. Wicca Para Todos. São Paulo: Alfabeto, 2020.
  • RUSSELL, Jeffrey B. & BROOKS, Alexander. História da Bruxaria. Trad. Álvaro Cabral e William Lagos. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2019.
  • TERZETTI FILHO, Celso Luiz. A deusa não conhece fronteiras e fala todas as línguas: um estudo sobre a religião wicca nos Estados Unidos e no Brasil. Tese (Doutorado) - PUC-SP, 2016.
  • TOMAZELLI, Roni. Para onde foram as bruxas? Estudos históricos sobre a bruxaria tardo medieval. Anais do V Encontro Internacional UFES, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/UFESUPEM/article/view/11802. Acesso em: 22 jun. 2018.
Site oficial da Tradição Wiccaniana de Taliesin
Todos os textos são de autoria de Sérgio Lourenço, Sacerdote Wiccano da Tradição de Taliesin
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie seu site grátis! Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também! Comece agora